Fúria | parte I
"É diferente da raiva ou do ódio
por ser passional e fulminante... como uma explosão."
Victor saiu às 20:30 do trabalho naquela sexta-feira, além do seu horário habitual, afinal, fora o pior dia de trabalho dos últimos 6 meses. Victor não gostava do que fazia: transformar culpados em inocentes usando seu domínio sobre as palavras, mas ele era bom nisso. Também não gostava das pessoas do trabalho: "Abra os olhos, rapaz, são todos iguais; lobos em pele de cordeiro" dizia a ele, vez por outra, seu Felício, vigia noturno, o único em quem confiava ali. Não gostava do ritmo superurbano e alucinado das metrópoles, nem da insegurança da vida moderna, nem da mídia com todo o seu apelo para fazer de você alguém que você não precisa ser. Victor definitivamente não gostava do barulho do mundo atual, e isso o saturava, pouco a pouco, todos os dias. O telefone tocou enquanto ia para o elevador; era sua mulher — a dez metros do celular seria possível ouvir sua voz estridente, histérica e veloz reclamando por ele ainda não estar em casa. Também não gostava dela; não mais, pelo menos desde que ela passou a "ser ela mesma" depois de 8 meses de casamento. Descobriu então que namorou, amou e casou com outra pessoa, diferente daquela com quem vive todos os dias.
— Não vou discutir.
Respondeu em tom baixo e contido e desligou sem esperar resposta; ele não era assim e isso não era bom; normalmente era agressivo, arredio e retrucava sempre, mas não dessa vez. Sentia um bolo por dentro, calor e uma vontade enorme de quebrar o que visse pela frente aonde cada pequeno contratempo o levava um degrau acima nesse estado. O celular tocou novamente. Desligou-o completamente dessa vez, sem atender, era sua mulher de novo. Entrou no carro e saiu. Lembrou que o ar havia quebrado no dia anterior. Respirou fundo, e faria isso algumas vezes até a hora de dormir pois sabia que a gota d'água num dia como esse não seria nada agradável. Abriu os vidros do carro. Ligou o rádio e desligou em seguida; precisava de silêncio.
Victor pensava em mudar-se para uma cidade pequena, ou quem sabe para o campo; tinha esse sonho pois acreditava que poderia administrar melhor tudo isso em um lugar onde não houvesse...tudo isso.
Continua...
quarta-feira, 18 de junho de 2008
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9 comentários:
Muito bom! Vamos ver o que acontecerá com o Victor no próximo post. :)
Tá ficando bom nisso.
Cris
Muito interessante seus contos suas crônicas, tudo que voce escreve mas acho que voce nao deve se ater apenas ao blog, voe para o mundo dos escritores e lance aos quatro ventos seus talentos.
Continue assim, eu estou adorando e creio que o mundo tambem estaria se te descobrisse.
Nossa! Mto bom!!! Quero saber o resto.
Bjos
Estou colocando a leitura do seu blog em dia. Tô rindo mto aqui com "árdua experiência pra vencer a masturbação." :-))))
ok! saindo do forno!
Beleza, rapaz! excelente conto! sua narrativa consegue realmente prender a atenção do leitor e as crônicas e contos caem muito bem aqui em seu blog. Estou aguardando a continuação.
abraços!
Sempre que demoro pra qualquer coisa minha namorada me liga com essa voz estridente, histérica e veloz que vc bem descreveu aí e eu odeio isso, pqp...
as vezes a gente busca justamente o contrário para que a vida tenha mais algum sentido...
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