quarta-feira, 18 de junho de 2008

Fúria | parte I

"É diferente da raiva ou do ódio
por ser passional e fulminante... como uma explosão."

Victor saiu às 20:30 do trabalho naquela sexta-feira, além do seu horário habitual, afinal, fora o pior dia de trabalho dos últimos 6 meses. Victor não gostava do que fazia: transformar culpados em inocentes usando seu domínio sobre as palavras, mas ele era bom nisso. Também não gostava das pessoas do trabalho: "Abra os olhos, rapaz, são todos iguais; lobos em pele de cordeiro" dizia a ele, vez por outra, seu Felício, vigia noturno, o único em quem confiava ali. Não gostava do ritmo superurbano e alucinado das metrópoles, nem da insegurança da vida moderna, nem da mídia com todo o seu apelo para fazer de você alguém que você não precisa ser. Victor definitivamente não gostava do barulho do mundo atual, e isso o saturava, pouco a pouco, todos os dias. O telefone tocou enquanto ia para o elevador; era sua mulher — a dez metros do celular seria possível ouvir sua voz estridente, histérica e veloz reclamando por ele ainda não estar em casa. Também não gostava dela; não mais, pelo menos desde que ela passou a "ser ela mesma" depois de 8 meses de casamento. Descobriu então que namorou, amou e casou com outra pessoa, diferente daquela com quem vive todos os dias.
— Não vou discutir.
Respondeu em tom baixo e contido e desligou sem esperar resposta; ele não era assim e isso não era bom; normalmente era agressivo, arredio e retrucava sempre, mas não dessa vez. Sentia um bolo por dentro, calor e uma vontade enorme de quebrar o que visse pela frente aonde cada pequeno contratempo o levava um degrau acima nesse estado. O celular tocou novamente. Desligou-o completamente dessa vez, sem atender, era sua mulher de novo. Entrou no carro e saiu. Lembrou que o ar havia quebrado no dia anterior. Respirou fundo, e faria isso algumas vezes até a hora de dormir pois sabia que a gota d'água num dia como esse não seria nada agradável. Abriu os vidros do carro. Ligou o rádio e desligou em seguida; precisava de silêncio.
Victor pensava em mudar-se para uma cidade pequena, ou quem sabe para o campo; tinha esse sonho pois acreditava que poderia administrar melhor tudo isso em um lugar onde não houvesse...tudo isso.

Continua...

9 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom! Vamos ver o que acontecerá com o Victor no próximo post. :)

Anônimo disse...

Tá ficando bom nisso.

Anônimo disse...

Cris
Muito interessante seus contos suas crônicas, tudo que voce escreve mas acho que voce nao deve se ater apenas ao blog, voe para o mundo dos escritores e lance aos quatro ventos seus talentos.

Continue assim, eu estou adorando e creio que o mundo tambem estaria se te descobrisse.

Anônimo disse...

Nossa! Mto bom!!! Quero saber o resto.
Bjos

Anônimo disse...

Estou colocando a leitura do seu blog em dia. Tô rindo mto aqui com "árdua experiência pra vencer a masturbação." :-))))

Cristiano disse...

ok! saindo do forno!

Anônimo disse...

Beleza, rapaz! excelente conto! sua narrativa consegue realmente prender a atenção do leitor e as crônicas e contos caem muito bem aqui em seu blog. Estou aguardando a continuação.
abraços!

Anônimo disse...

Sempre que demoro pra qualquer coisa minha namorada me liga com essa voz estridente, histérica e veloz que vc bem descreveu aí e eu odeio isso, pqp...

Liliane disse...

as vezes a gente busca justamente o contrário para que a vida tenha mais algum sentido...