domingo, 6 de abril de 2008

Sentia o coração bater forte, no mesmo tempo da marcação do concerto de Bach que tocava em seu mp3. Sentia o vento vindo contra ele como se quisesse pará-lo. Procurou na memória algum momento agradável pra lembrar e voltou à sua infância, aos seis anos. Lembrou das manhãs de domingo quando sua mãe o levava para tomar o sol matinal perto do parque, em frente à igreja. Sua mãe não era católica e não ia às missas de domingo como era hábito de todos na cidade, era vista como uma mulher 'moderna demais'. Frederico, aos seus seis anos, gostava disso, não entendia porque mas gostava de não fazer parte das missas e poder estar no parque brincando com os dois cachorrinhos que sempre ficavam por lá, os quais ele apelidou de Sansão e Spooke, sentindo a brisa da manhã, o sol leve e brilhante e os olhares de reprovação das beatas. Sentia-se seguro, com sua mãe sentada num grande banco de madeira trabalhada, lendo Anne Frank à sombra de um enorme Ipê. Ao lembrar disso foi invadido por uma esperança que o tomou por inteiro, como não sentia a muito tempo, e saudade. Lembrou da época em que fez seus primeiros verdadeiros amigos na 3ª série, lembrou como se divertiam todos os dias ao sair da escola mais cedo, quando ao cortar caminho pela estradinha do farol nunca resistiam aos encantos do rio, e ficavam por horas brincando nele, e durante uns dois meses, quase todos os dias chegava em casa molhado, e feliz. Lembrou do seu primeiro contato com uma grande dor ao quebrar o braço esquerdo após cair da ponte da estrada velha por onde passavam os trens de carga, e do segundo contato com uma grande dor, ao perder Sansão, seu companheiro canino de anos, em todas as horas de solidão, o único além de seus pais que o amava incondicionalmente. Continuou lembrando vertiginosamente, e percebeu pela primeira vez como sua história era singular, densa e cheia de sentido. Como todas as experiências boas e ruins ajudaram a molda-lo. Relembrou então, a morte de seu pai a três meses num acidente, a Sexta-Feira em que fora dispensado do trabalho, mês passado, numa negociação nada amigável e por fim lembrou-se da semana anterior quando perdeu os dois últimos alicerces do seu mundo — sua namorada e seu melhor amigo, os quais, no melhor estilo pastelão, encontravam-se secretamente a quase um ano. Não acreditou que tal drama mexicano estivesse acontecendo com ele. Frederico fora vítima do mais patético de todos os clichès. Tudo ao mesmo tempo. Um misto de raiva, incerteza e arrependimento o tomaram. Lembrou de como sua cabeça rodou ao contabilizar todas as perdas, e como o coração ficou apertado depois disso. Tudo numa fração de segundos O forte vazio que sentia de tempos em tempos e aqueles fatídicos episódios justificariam pra ele qualquer ato, mas não mais agora. 17º andar, o vento estava mais forte e seu coração já não acompanhava Bach, estava mais rápido. Súbitamente lembrou-se de Júlia, a vizinha que sempre lhe entregava as correspondências erradas que iam para sua casa, lembrou que ela também adorava música clássica e recordou de um certo Sábado à noite, após brigar com sua namorada, quando encontrou Júlia sozinha no terraço, olhando a cidade, e conversaram durante horas como se se conhecessem desde sempre. Lembrou o quanto sentia uma proximidade singular com ela e o quanto ela era receptiva, mas nunca deu atenção por estar muito envolvido em seu namoro. 14º andar. Percebeu naquele momento que não sabia mais por que amava sua namorada, quase não tinham gostos em comum, apenas uma estranha dependência, e quis estar com Júlia. Confusão. Vergonha. Não tinha mais certeza de nada. 8º andar. Não havia multidão nem platéia, eram 23:37 e só havia a noite, o barulho da sua roupa trepidando ao vento e o chão aproximando-se rapidamente. Sua última lembrança foi a de ter tido a idéia estúpída de se jogar do 25º andar do seu prédio, com seus fones de ouvido tocando o concerto para dois violinos em ré menor. Frederico conseguiu mudar completamente a perspectiva naqueles segundos de queda, talvez a pressão do momento ou o instinto de sobrevivência, e se perguntou porque não fizera isso antes, sentiu a seriedade daquilo, sentiu o arrependimento tomando-o como se um veneno quente e lento fosse-lhe injetado nas veias, sentiu o medo, o peito espremido, sufocado e o desespero que sentimos ao cometer um grave erro irreversível, quis voltar atrás mas já era tarde, sua vida se dissipava pelo caminho, diminuindo de intensidade a cada andar passado, não adiantaria gritar, qualquer ajuda chegaria tarde, achou mais digno terminar calado, assumindo as consequências de sua decisão idiota. 6º andar.
Srª Elvira, distinta senhora moradora do 3º andar, acabara de chegar do casamento de seu filho mais novo, vendo que o tempo estava anunciando chuva, resolveu abrir o enorme toldo da janela da sala, já que não queria fechar as janelas devido ao calor. 5º andar. Frederico chorava, queria voltar e esquecer aquilo, reencontrar a sua vida. Súbitamente, sem perceber como, bateu violentamente contra uma superfície macia e teve sua rota desviada para o lado, quando se deu conta estava indo em direção a uma árvore. Salvo pelo toldo. Dona Elvira voltou-se rapidamente para a janela, assustada com o barulho. Viu Frederico todo arranhado e contente, fortemente agarrado à àrvore, como se ela fosse a própria vida quase perdida. Frederico desceu rápido e trêmulo e disse:
— Dona Elvira...como vai? eu...eu...escorreguei da janela e... mas estou bem, nem precisa comentar com ninguém, tá bom? uma boa noite para a senhora...e obrigado pelo toldo...boa noite...
e saiu atordoado, tentando se recompor sem chamar muito a atenção.
Dona Elvira continuou olhando estarrecida sem conseguir ligar os pontos, não disse uma palavra, e Frederico subiu de volta ao apartamento, decidido a deixar um bilhete embaixo da porta de Júlia e pronto pra recomeçar toda a sua vida.


Cristiano

9 comentários:

Anônimo disse...

Putz, muuuuito bom!!!
Meu, não pare nunca, para o deleite de todos, continue sempre escrevendo essas maravilhas!
Abração

Anônimo disse...

Que triste cara, é a primeira vez que venho aqui, mas parece pessoal, acho que conheço algo assim.

Anônimo disse...

É você?

Cristiano disse...

Caro anônimo,
Esta é uma crônica narrativa, não é sobre mim, é uma estória inventada, ficção. Conhece o conceito?

Anônimo disse...

já pulei também, mas não fui tão bem-sucedida.
sou uma anônima que sabe ser ficção, tá?
adorei! hihihi

Cristiano disse...

BH. Valeu o incentivo!
espero que boas inspirações continuem vindo, pois acho que escrever depende essencialmente disso.
Abraço.

Anônimo disse...

Excelente crônica, rapaz! tem outras? coloca aí pros leitores!
Abraço

Cristiano disse...

Por enquanto essa foi a primeira mas assim que rolarem outras estarão aqui.
Abs!

Anônimo disse...

Depois a voz entra em off e diz: "Toldos Sassazaki, seguram qualquer barra pesada!". Por um momento me animei pensando que ele ia cair em cima da velha...