quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Fúria parte III final

Ele poderia explodir naquele momento. Parado no sinal, olhava o semáforo fixamente. Desistiu de tentar controlar sua raiva mas simplesmente não conseguia extravasar. Com as feições contraídas e os dentes cerrados, apertava o volante com força, olhou para o lado e viu Elisa parada na calçada, com um olhar apreensivo, ela fez-lhe um sinal rápido e esboçou falar algo mas antes que ele pudesse entender ouviu uma voz de homem gritar: "— Sai do carro!", a porta do carro abriu-se violentamente e quando se deu conta já havia uma arma apontada para a sua cabeça; era o homem-cão, segundo Elisa. Naquele exato momento Vítor sentiu fervor, calor e toda a fúria contida nele começou a entrar em ebulição, tudo ficou em câmera lenta para ele e o medo pareceu nunca ter existido. Colocou os pés vagarosamente pra fora do automóvel e olhou o homem-cão nos olhos, estava drogado, entorpecido. Viu detalhes da arma, uma Beretta 9mm de aço anodizado negro, 15 tiros, miras reguláveis, não gostava de armas, mas as conhecia bem. Viu o olhar de pavor de algumas pessoas que corriam pra se esconder e outras petrificadas dentro de seus carros, mas não ele, não naquela noite, não havia medo; da arma, do bandido, da morte...de nada. Parou em frente à porta do carro e fechou-a: "— Sai da frente!" gritou o homem-cão apontando a arma para seu peito. Raiva. Fervendo. Subindo. "Quem é você, seu verme?" pensava Vítor. "Que direito você acha que tem de me ameaçar?" Subindo. Fervendo. Febre. Ira... e fúria: "— Não!" disse Vítor, e num golpe rápido segurou o braço do homem-cão. Dois disparos. Um deles atingiu Vítor no ombro esquerdo à queima-roupa, mas seu sangue fervia demais pra sentir alguma coisa naquele momento. Acertou o gatuno no queixo, outro soco, o homem-cão imprensou-o contra o carro. Um disparo no ar. Vítor segurou-lhe o braço, deu outro soco, depois de alguma luta tomou-lhe a arma, continuou segurando seu braço, tudo muito rápido, e Vítor já tinha a arma apontada para o homem-cão, pôde ver o medo na face dele, sentia o sangue quente escorrer-lhe pelo ombro e uma dor fina e contínua, mas segurou forte o braço do homem-cão, olhou dentro de deus olhos e disse o que havia pensado antes:
"— Verme...", e atirou... o homem-cão pendeu para o chão mas Vítor continuou segurando-lhe o braço como se quisesse mantê-lo em pé. Elisa olhava tudo do outro lado da rua, todos haviam se escondido menos ela. Dois tiros. Três. Febre. Fúria. Quatro tiros. O homem-cão já estava de joelhos mas Vítor segurava-o por um braço com toda a força, e continuou. Cinco. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto sem controle misturando-se ao sangue no asfalto. Seis tiros. O homem-cão já estava morto. Elisa assistia à cena e sentia um misto de satisfação, culpa e medo, pelo olhar de Vítor, sem esforço, ela viu claramente o que ele estava sentindo e entendeu-o como ninguém ali. Sete. Vítor tremia. Soltou o homem-cão e com toda a força que lhe restava, gritou... um grito alto e sentido, como se gritasse por tudo, por toda a sua vida, pelo que perdeu ao longo do caminho, por tudo o que não funcionava mais pra ele, convulsionando em lágrimas. As pessoas olhavam hipnotizadas, pareciam não sentir mais medo como antes. Oito tiros. Já não apertava o gatilho com tanta força. Nove. Dez. "— Meu Deus, chega, ele já está morto!" gritou alguém. Onze. Vítor chorava como uma criança enquanto apertava o gatilho repetidamente. No 12º tiro a munição acabou, mas ele continuou apertando e apertando, foi quando sentiu vertigem, ouviu ao longe o som de uma ambulância, abaixou-se tonto e caiu de joelhos. Todos chegaram perto timidamente. Vítor largou a arma. Elisa atravessou a rua. Vítor caiu no chão. Um médico que estava no carro de trás veio socorrê-lo. Elisa veio andando, saltou sobre o corpo do homem-cão como se pulasse uma poça de lama e veio para perto de Vítor. "— Alguém mantenha a cabeça dele levantada!" pediu o médico. Elisa já estava ali, sentou-se no chão, levantou a cabeça dele e colocou-a em seu colo. Vítor abriu os olhos e viu aquela garota, pálida como a lua acima dela, para ele um anjo redentor vestido de negro. Elisa alisou-lhe a testa e os cabelos, aproximou-se e sussurrou: "— Acabou, vai ficar tudo bem." As pessoas começaram a fazer os comentários vazios que fazem nessas situações e uma mulher na multidão falou: "— Não precisava ter atirado tanto! por que ninguém fez nada?". Elisa sabia o porquê, sabia que naquela noite, para Vítor, aquele homem representava todo o mal que existia no mundo, todo o mal presente em sua vida, tudo condensado em uma só criatura. Naquela noite o homem-cão era a insatisfação, as frustrações e a vida medíocre que Vítor levava, era a violência, o medo, o desrespeito e o descaso do qual todos somos escravos, e doze tiros era muito pouco pra tudo isso. Elisa também sabia por que todos ficaram assistindo sem esboçar reação alguma; ninguém admitiria mas aquela foi a noite do acerto de contas, da pequena vingança particular de cada um que ali estava... Elisa não conhecia Vítor mas teve a impressão de que ele teria outra reação em qualquer outro dia, menos naquele, e pela primeira vez ela observou que talvez não existam sentimentos bons ou ruins por natureza, talvez eles sejam o que fazemos com eles, pois toda a raiva daquele homem tragicamente trouxe a sensação de justiça e um estranho alívio aos que assistiram a cena. Elisa esperou Vítor ser levado pela ambulância, e seguiu seu caminho, já sabia qual seria o tema do poema daquela noite, e começaria assim:
Fúria
É diferente da raiva ou do ódio por ser passional e fulminante...
como uma explosão...

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