Fúria | parte II
Elisa tem 25 anos, é gótica desde os 15, e isso foi o seu escudo e abrigo durante todo o colegial repleto de adolescentes panacas e cruéis com quem era diferente deles. Adora animais, mais que pessoas, por isso se formou em medicina veterinária e aos 23 descobriu que não podia ser gótica em tempo integral. Começou a estagiar aos 24 e viu que seu guarda-roupas de roupas pretas teria que dividir o espaço com os jalecos, calças e acessórios brancos; durante o dia passou a ser a jovem Drª Elisa Galvão e à noite era Lizzie, a velocity girl, como era chamada pelos seus, e desde então vive sua vida preto-e-branca, repleta de um colorido que só ela entende bem. Diferente de Victor, Elisa adora a cidade e toda a sua efervescência; carros, movimento, luzes e música...e as noites no Garlands Pub. Não tem paciência para as pessoas e suas complicações, vícios, hipocrisias e nem para o frágil verniz de civilização do mundo adulto; pra ela as coisas são mais simples e transparentes. Não se encaixa no rebanho e o rebanho também não vai com a cara dela, por isso aprendeu a ser só e feliz mesmo assim. Tem uma relação diferente com a vida e a morte, não tem medo ou superstições sobre esta última, como a maioria, e adora as reuniões noturnas que faz com seus poucos amigos em cemitérios arborizados e com vastos gramados a perder de vista, para falar da vida, ouvir punk rock e recitar poesias para as pedras e lápides, e naquela sexta-feira ela estava indo pra lá. Alguns colegas de trabalho desavisados ficavam chocados quando descobriam que ela frequentava cemitérios, mas ela não se importava, o mesmo silêncio que todos consideravam fúnebre, para ela era libertador. A cada semana alguém escolhe um tema, cria um poema e recita-o; assim começavam seus encontros e após isso a madrugada inteira era deles.
Eram 20:45 quando Elisa cruzou a praça Miguel Trovador para encontrar Igor e os outros amigos, com uma coletânia improvisada de Siouxsie and The Banshees para abrir a noite, iriam para um novo cemitério; tiveram que trocar de local por causa de um coveiro novato que começou a tomar conta do terreno na sexta passada:
— Ei! não podem ficar aqui! Seu Antenor me falou de vocês mas não vão mais poder ficar! - disse o coveiro com voz arranhada e cheia de pigarro.
— Por que? Sempre ficamos. quem é vc? - perguntou Margô, raivosa.
— Sou eu que tomo conta daqui agora... e é melhor vocês irem, aqui não é lugar pra isso!
— Isso o que? – perguntou Elisa
— Isso...vocês... estão perturbando os mortos!
— Como assim? Os mortos não podem mais ser perturbados, estão...mortos. - disse Max com ar de tédio profundo.
— Não interessa! - disse o velho já gritando
— Fale baixo, vai acordar os mortos... - retrucou Igor com sarcasmo.
— Vocês vão embora nem que eu tenha que... blá, blá, blá, blá...
Então perceberam que não caberia passar a noite de sexta batendo boca com um coveiro rabugento que na verdade pensava que eles eram de alguma seita satânica, e resolveram mudar de local de encontro.
Por ter passado por barras pesadas desde a infância ela tornou-se mais madura e perspicaz que os de sua idade, sempre andou com os mais velhos e estava sempre à frente. Com o tempo e o convívio com a noite aprendeu a perder o medo de quase tudo, quase...pois ainda sentia arrepios quando via circos, palhaços e trapezistas, não à toa: aos 14 anos estava saindo de uma apresentação de um circo itinerário em sua cidade, com seu pai, seu irmão gêmeo e Bia, a irmã caçula. Seu pai havia estacionado o carro num local ermo e um pouco distante devido à grande quantidade de público naquela noite. Quando todos já estavam entrando no carro aproximou-se deles um homem com uma máscara bizarra e mal-feita de cachorro: — Olha Liz, o homem-cão! - disse Bia inocentemente. Ele sacou uma arma e numa voz rouca e abafada mandou que seu pai passasse a carteira e se afastasse do carro com as crianças, um arrepio gelado percorreu todo o corpo de Elisa ao ouvir aquela voz soturna misturada à estranha figura de homem e animal. Lucas, seu irmão, num surto de pânico, deu um salto brusco para a frente na tentativa de se agarrar ao pai e acabou sendo baleado. O homem-cão fugiu, Lucas não resistiu e eles nunca mais foram os mesmos, desde então toda vez que Elisa vê palhaços, tendas ou pessoas fantasiadas um frio lhe percorre a espinha, a partir daquele dia qualquer tipo de gatuno tornou-se para ela um homem-cão, e é assim que ela os chama até hoje; desenvolveu uma raiva particular por qualquer um deles e por ela ser uma criatura da noite aprendeu a identificá-los de longe: pelo espectro, pelo andar, pelo olhar... como aquele cara que estava do outro lado da rua quando o sinal fechou. Os transeuntes começaram a atravessar mas Elisa não se mexeu — uma forte impressão, como um zumbido surdo, lhe dizia que alguma coisa iria acontecer. Viu que ele olhava fixamente para um dos carros parados no sinal, Elisa olhou para dentro do carro e viu um homem de semblante ríspido e indiferente fitando o semáforo, parecia não estar ali; era Victor.
Continua...

2 comentários:
quero saber como essa historia termina...
Essa Elisa poderia se chamar Francis...por sorte não encontrei o Homem-Cão, mas já sai na mão com assaltante. Vc me assusta. Bjo!
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